no bar

Ontem fui sair, hoje bebo água. Muita água. E sumos com verdes cheios de vitaminas e chá desintoxicante. Mentira, bebo café preto feito na cafeteira caseira e como papas de aveia cheias de dióspiro, banana, mel, canela e amêndoas, em leite de arroz. YUM. Manhãs solarentas de domingo, em que a minha casa partilhada está silenciosa, com todos os coleguinhas fora. Ouço o vizinho de cima espirrar, as maravilhas de viver num bairro histórico de Lisboa. A máquina lava a roupa escura em programa económico e eu queimo o céu da boca. Queimo sempre o céu da boca, como se fosse a primeira vez. Já nem me chateio com isso. Penso na noite de ontem, em que oscilei entre o bairro alto e o meu bairro, acabando ali no bar da rua de baixo, a Tabacaria. Vinho tinto bom, chamado diálogo, apelando ao mesmo. Falamos de amor, de desamor, de homens, de inseguranças, do que torna um vinho bom. Bebemos copos de água com limão entre os tragos de tinto. Já não temos 20 anos e sabemos que temos que ter mais cuidado. Connosco e com os outros, não só com o álcool mas, e sobretudo, com as palavras. Andamos todos super sensíveis, homens e mulheres. Analisamos tudo e todos e, acreditem, o tudo é mesmo imenso, dada a ridícula quantidade de mensagens e informação que se troca nestes dias. Eu e a minha amiga Israelita, conhecemo-nos num domingo no Tati, o querido Tati gentrificado sabe-se lá para onde, por mais um Boutique Hotel, daqueles que nem sei bem quem lá dorme. Tinham passado dois dias desde que me mudei para aqui, esta casa porca e solarenta, e queria ir beber um copo de vinho mas não tinha companhia. Acontece. Acontece sobretudo quando se viveu fora tantos anos, não nos identificamos muito com a vida da nossa cidade e mudamos mais vezes que as que percebemos. Aceitemos e andemos para a frente. Lá no Tati, procuro uma mesa confortável, mais que um lugar onde se consiga ouvir o Jazz que vai começar em breve. Conheço o saxofonista, bem. Dizemos olá e trocamos três palavras tontas que não interessam a ninguém mas intrigam quem está à volta. Encontro lugar no balcão da janela que é como quem diz, uma mesa alta e banco de pé. Sento-me com o meu copo de vinho da semana, um vinho equilibrado tanto em corpo como em preço. Ponho-me confortável. Abro o primo do Moleskine e começo a escrever. Não me apetece mas assim não estou sozinha. Com a escrita nunca estamos sozinhos, é como um livro mas ainda melhor. Olho para o lado e está uma miúda tal como eu, com o seu copo de vinho, caderno e bica. Eu não tenho a bica porque já tenho pica suficiente. Olhamos uma para a outra e percebemos que há uma margem. Uma janela para conversar. M é uma artista plástica a viajar sozinha, num momento de vazio criativo e em buscar vá-se-lá-saber-do-quê. Trocamos nomes, palavras, falamos muito. Tal como ontem, sobre amor, desamor, homens, inseguranças. Ampliamos o tema para sonhos, estereótipos, sociedades patriarcais, as dificuldades de ser mulher nos dias de hoje, o que nos atraí nos homens e porque sentimos que eles fogem de nós - ouve lá, porquê que fogem sempre? Pedimos mais um copo de vinho, este dividido, sugestão da amiga lisboeta que não quer beber demais mas bebe sempre um bocadinho a mais. A música toca animada, nem sei bem o que é. Eu nem gosto de jazz. Desculpem a minha falta de erudição mas eu sou mais Nirvana e Arcade Fire, com twist de Bonga e Bach. Ulala. Continuamos a falar, fluidamente até secar, a boca e a conversa. Pagamos e vamos embora. Mostro-lhe onde eu iria jantar se estivesse sozinha. Nada de especial, nem digo o nome mas algo perfeito para um domingo a noite regado. Venho para a casa e como qualquer coisa, aposto sopa com torradas de pão de centeio. Sempre torradas, sempre sopa, sempre coisas que dão conforto. Para o resto, está o frio lá fora, e os julgamentos dos outros e os nossos. São sempre os outros mas afinal é tudo nosso. Tomemos as rédeas da vida e sentemo-nos em mais bares da moda, em cafés bonitos, em restaurantes bons. Nunca estamos sozinhos. Há sempre nós mesmo, o primo do Moleskine e um ou outro anjinho que surge sabe-se lá de onde. Agora aproveitemos domingo. Há tempo para continuar isto depois.

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