o encontro ideal

Sinto-me meio adoentada mas mesmo assim saio de casa. Não sei se por me apetecer sair, de por não conseguir ficar. Subo as escadas da Bica à pressa, o elevador não interrompe o ritmo. Chego a horas, na verdade, cinco minutos mais cedo. Entro, olho à minha volta. Pessoas mais velhas, com casacos a cheirar a armários antigos e jornais artísticos abertos, a ocupar todo o espaço das mesas redondas, sem por isso invadirem o espaço do outro. Pergunto se o filme 'é giro'. Respondem-me 'giro não será a palavra, mas é um bom filme'. Troco mais dois dedos de conversa, estava mesmo a precisar, e lá peço um bilhete para o Dogman, o novo filme do Matteo Garrone, o tipo do Gorroma - claro que se lembram o mega sucesso sobre a máfia italiana.
Escolho um lugar do lado esquerdo, aqui não os há marcados. Antes disso ainda espero trinta segundos que a porta seja aberta pelo rapaz do costume, que já me conhece apesar de eu ter ido lá só uma vez. Rapaz novo e simpático este, bem lisboeta. Lá me sento, olhando para trás para não perturbar o casal de intelectuais que está nessa fila. Ponho-me confortável e, após um trailer de um filme português do qual não sei o nome mas quero ver, lá começa o filme. Do humor ao terror será mais rápido que a minha catarsis pessoal, um misto entre rever-me no personagem principal, e a pena desumana por outro humano. Como se pode chegar àquele ponto? Como é que alguém se pode anular tanto em função de outro? Como é que alguém tão bom se deixa fazerem-lhe tanto mal?
Relembro-me da minha estadia na casa da bruxa em Chiang Mai (outro post) e quase que tenho pena de mim mesma. Penso na minha dificuldade em dizer não, em assumir as minhas ideias, em estabelecer barreiras pessoais e, a tensão pessoal, alinhada com o filme, começa a crescer até explodir em lágrimas e respiraçōes cada vez mais profundas. Tenho que parar de ver. Cobro a cara com o casaco grande de Inverno, como uma laranja. Sim, um pouco de acidez para avivar o que estou ali a fazer. Uau. Que filme este. Ai catarsis esta que ainda dói, como um murro que deixa a sua marca por alguns dias.
Fugindo da dor e da verdade, perco-me em pensamentos. Uma mulher vai ao cinema sozinha ver o que quer. A adolescente vê o que os outros querem. Uma mulher aceita que não pode agradar a todos. A adolescente sente que tem. Uma mulher fala, e escreve, o que lhe vai na alma, mesmo quando não é simples ou linear. A adolescente, sei lá, depende. Respiro fundo. Dentro, fora. Regresso à sala de cinema, não quero sentir que perdi assim tantos minutos do filme. Entre socos, roubos, mimo familiar, cães, droga e uma fotografia incrível em estilo belo-decandente, o filme vai-se precipitando para o fim e, com ele, começo a arrumar os meus pertences, respirando a tensão e recuperando do murro que ali levei. Passados dois dias percebo que era mesmo ali que tinha que estar, nesta transição de adolescente para adulta, não no papel nem nos anos mas no papel social numa uma sociedade em que somos adolescentes até aos 40. Eis o encontro ideal connosco mesmos. Aquele com que temos de lidar do início ao fim.

Cinema Ideal 
Rua do Loreto, 15

1200-086 Lisboa
(ao Chiado)

Comments

  1. eu cá só sei ir ao cinema sozinha, não aguento a pressão de um outro ser ali ao lado. agora deste-me vontade de voltar a essa rotina, já lá não ponho os pés há demasiado tempo. que coisa boa hoje, achar este blog.

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    1. zosia, que coisa boa hoje ler os teus comentários - andava aqui as voltas se devia continuar isto ou não. e olha, ir ao cinema acompanhada também pode ser bem bom. just saying, girrl!

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    2. continua, claro!! talvez me falte encontrar a companhia certa. one day, quem sabe. se a encontrar passo por cá a dizer-te.
      até lá continuo a ir sozinha, já me voltei a aventurar este sábado pelo Monumental e tão bem que soube :)

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